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Naércio Menezes Filho, do Insper, e Scott Carlson do The Chronicle Higher Education, abriram segunda dia do FNESP. Foto: Guilherme Veloso/Semesp

A crise econômica e sanitária tem afetado toda a sociedade e impactado a sustentabilidade do ensino superior. Duas perspectivas diferentes, uma nacional e outra global, abriram as discussões do segundo dia do 22º FNESP, nesta quarta (28). O economista e pesquisador do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Naércio Menezes Filho, apresentou uma série de dados sobre o ensino superior brasileiro. Já o escritor sênior do jornal The Chronicle Higher Education, Scott Carlson, trouxe os desafios internos e externos para a sustentabilidade das instituições de ensino superior.

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“O Brasil não investiu em educação, e esse foi um dos seus grandes erros históricos”, lamentou Naércio no início de sua palestra. “Não superamos a questão do analfabetismo e isso é o cerne de vários problemas que enfrentamos atualmente, como baixa produtividade, problemas de saúde e alta criminalidade”, listou. “Se tivéssemos investido em educação de maneira sustentada, seríamos um outro país. Por isso, é importante investir em educação agora”, decretou o economista.

“O ensino superior ainda faz sentido no Brasil, com uma diferença salarial elevada entre quem tem diploma de graduação e quem não tem”, avaliou Naércio Menezes Filho durante palestra no FNESP. Foto: Guilherme Veloso/Semesp

Para Naércio Filho, outra questão que o país precisa repensar é a restrição ao acesso ao ensino superior. “Temos menos de 20% da população com ensino superior. Isso representa um atraso em relação a outros países e uma falta de diversidade dos estudantes. O país precisa de medidas afirmativas e de valorização das diferenças para reverter isso e desenvolver um processo  inclusivo contínuo, diminuindo diferenças para que a sociedade ganhe em diversidade e democracia”, pontou.

Com a crise econômica, a pandemia e a transição demográfica que o país vem sofrendo, com uma rápida diminuição no número de nascimentos, a perspectiva de futuro para o ensino superior é uma queda no número de matrículas, o que pode afetar ainda mais sua sustentabilidade. Segundo Naércio, isso vai ser ainda mais agravado pela falta de igualdade de oportunidades, pelas deficiências na educação básica e falta de habilidades socioemocionais característica dos estudantes brasileiros. “Esses fatores afetam a aprendizagem, comprometendo o aprendizado ao longo da vida. Grande parte de nossa evasão no ensino médio, por exemplo, tem a ver com esses problemas, o que impacto o ensino superior lá na frente”, explicou.

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“O ensino superior ainda faz sentido no Brasil, com uma diferença salarial elevada entre quem tem diploma de graduação e quem não tem”, avaliou Naércio. “Mas com a pandemia e as possibilidades proporcionadas pelas mudanças tecnológicas, é preciso que o setor se pergunte qual é o tipo de ensino superior necessário?”. O próprio Naércio apontou algumas saídas, como aprimorar a educação básica no país, implementar políticas públicas eficientes de financiamento, diversificar as ofertas, como o ensino híbrido, por exemplo, e aumentar a eficácia do EaD, oferecendo um ensino a distância de qualidade que tenha o mesmo impacto no aprendizado que a modalidade presencial.

Depois de apontar esse panorama de desafios do setor, Scott Carlson afirmou que as instituições de ensino superior precisam migrar para um novo modelo de negócio. Foto: Guilherme Veloso/Semesp

Desafios internos e externos do setor

Scott Carlson começou sua palestra afirmando que consegue enxergar paralelos entre o sistema educacional brasileiro e o norte-americano em termos de desafios. “As faculdades estão sofrendo grande pressão nos Estados Unidos. Elas têm sido avaliadas negativamente há muito tempo, com uma estagnação no crescimento das receitas, estabilidade no número de matrículas e uma diminuição do aporte de recursos por parte do estado”, citou. “Isso tem levado a um debate constante sobre qual o valor do ensino superior”.

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Em seguida, Carlson listou uma série de desafios internos e externos que tem afetado o setor, como uma deficiência das IES na avaliação de seus próprios custos, o investimento excessivo em espaços físicos, o aumento desordenado de cargos administrativos, por exemplo. “As IES não querem saber quanto cada aluno e curso custam porque não querem eliminar cursos. Elas ainda investem em grandes espaços físicos para atrair alunos, mas esse ritmo de expansão tem se mostrado mais acelerado do que o crescimento das matrículas. Outras questão é uma espécie de fatiga dos pró-reitores em um momento que as IES precisam de líderes experientes que entendam a missão acadêmica do ensino superior”, explicou. “Esses problemas podem ameaçar a visibilidade e a sustentabilidade da educação superior, são uma risco à reputação das IES e à atração de alunos”.

Os desafios não param por aí. Há fatores externos como a transição demográfica, a falta de capacidade financeiras das famílias e uma desconexão entre a formação e as necessidades do mercado de trabalho. “O número de alunos que sai do ensino médio e entra no ensino superior tem caído, o que pode aumentar a concorrência entre IES menos seletivas”, afirmou Scott Carlson. “As universidades passaram a atrair um tipo de aluno com menor renda e sem experiências familiares na educação superior, o que tem levado a um aumento da evasão porque essas pessoas enfrentam outras questões na vida que dificultam o acompanhamento e a dedicação aos estudos”, complementou.

“O mercado quer que os profissionais saiam prontos das universidades, mas tem se mostrado insatisfeito com a formação dos egressos”, disse ele. “Essas questões têm levado a sociedade a questionar quem realmente precisa de ensino superior, ainda mais em um momento em que o caminho para achar um emprego depois da faculdade está cada vez menos claro”.

Depois de discorrer sobre os desafios do setor, Scott Carlson afirmou que as instituições de ensino superior precisam migrar para um novo modelo de negócio. “Uma possibilidade é radicalizar o currículo universitário, adotando diplomas em níveis, como microcertificações”, exemplificou. O escritor ainda destacou que a pandemia da Covid-19 vai acelerar essas mudanças, com IES passando por fusões, combinando áreas, estabelecendo parcerias e com ofertas novas formas de ensino, como o híbrido.

Lúcia Teixeira, vice-presidente do Semesp, destacou o esforço feito pelas IES privadas para manter a qualidade do ensino durante a pandemia. Foto: Guilherme Veloso/Semesp

Abertura do segundo dia

A vice-presidente do Semesp, Lúcia Teixeira, abriu o segundo dia do 22º FNESP. Em sua fala, ela agradeceu aos mais de mil participantes do evento e destacou o esforço feito pelas IES privadas para manter a qualidade do ensino durante a pandemia. “Cerca de 80% dos universitários do país são atendidos por nossas instituições. As ações, o empreendedorismo e a inovação de nossas IES permitem que a educação chegue em todos os cantos do país”, afirmou.

O secretário de Educação do estado de São Paulo, Rossiele Soares da Silva, também participou da abertura. Segundo ele, esse é momento importante para discutir a sustentabilidade de setor com as mudanças provocadas pela pandemia da Covid-19. “Esse é um momento de mais possibilidade, não de menos. É a hora das IES privadas liderarem uma mudança de perspectiva para o ensino superior com o desenvolvimento de formações mais focadas e um olhar mais dedicado à questão da empregabilidade”, apontou.