Debate sobre carreiras no evento Conectando Campus e Carreira: Ensino Superior por Competências (Foto: Wilson Camargo/Mackenzie)

Ao longo do evento Conectando Campus e Carreira: Ensino Superior por Competências, promovido pelo Semesp, OCDE e REALCUP e realizado nesta sexta-feira, 14, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, duas sessões plenárias reuniram especialistas para aprofundar a relação entre aprendizagem, carreira e políticas públicas no ensino superior.

A primeira discussão trouxe reflexões sobre como fortalecer trajetórias acadêmicas e profissionais no Brasil, reunindo Renato H. Pedrosa, pesquisador do IEA/USP e membro da CONAES, e Elizabeth Balbachevsky, professora do Departamento de Ciência Política da USP. Na segunda sessão, o foco voltou-se ao impacto das dinâmicas políticas na formação e no desenvolvimento de carreiras, com contribuições de Luiz Roberto Liza Curi, titular de cátedra de pós-graduação da USP e pesquisador associado do DGPE/FGV, e Vidal Martins, vice-reitor da PUC Paraná. Juntos, os debates ampliaram a compreensão sobre os desafios atuais e as oportunidades para integrar aprendizagem, políticas institucionais e desenvolvimento profissional.

O pesquisador Renato H. Pedrosa apresentou um panorama baseado em dados recentes sobre a relação entre formação superior e emprego no país. Sua análise examinou a evolução do emprego formal por escolaridade, a distribuição dos profissionais com nível superior entre diferentes grupos ocupacionais e as principais áreas de formação que hoje compõem a oferta acadêmica. Ao discutir em que medida a formação dialoga (ou não) com a demanda real do mercado, ele destacou discrepâncias relevantes e chamou atenção para o papel crescente da educação a distância, questionando se ela tem funcionado como solução, problema ou um elemento ainda indefinido nesse cenário. “Precisamos enfrentar essas questões e acredito que o Brasil tem caminhado para esse enfrentamento”, decretou ele.

A professora Elizabeth Balbachevsky, do Departamento de Ciência Política da USP, lançou uma série de provocações para ampliar o debate sobre os desafios globais do ensino superior. Ela destacou que tendências demográficas, como o envelhecimento da população, já pressionam sistemas educacionais em diversos países. Somado a isso, a revolução tecnológica acelera a segmentação do mercado de trabalho: ocupações de nível médio perdem espaço, enquanto cresce a presença simultânea de empregos pouco qualificados e de posições altamente especializadas. “O avanço da inteligência artificial intensifica esse cenário, eliminando parcelas de atividades em várias profissões e provocando transformações que reverberam diretamente no ensino superior”, pontuou.

Segundo a professora, essas dinâmicas globais reduzem a centralidade do diploma tradicional e impulsionam uma reconfiguração das competências demandadas pelo mercado, ao mesmo tempo em que diversificam o perfil etário dos estudantes. “Essa fluidez, embora desafie modelos tradicionais, abre oportunidades para as instituições de ensino superior expandirem sua atuação em formação continuada, requalificação profissional e criação de trajetórias mais flexíveis. Caminhos alternativos de credenciamento, estratégias inovadoras de aprendizagem e o uso qualificado da educação a distância emergem como elementos essenciais para responder às novas demandas sociais e profissionais”, listou ela.

Debate sobre carreiras no evento Conectando Campus e Carreira: Ensino Superior por Competências (Foto: Wilson Camargo/Mackenzie)

Carreira e política

Em uma segunda sessão sobre a questão das carreiras, o professor Luiz Roberto Liza Curi destacou que, embora o sistema de educação superior brasileiro seja amplo e diverso, as universidades ocupam um lugar singular. Apenas cerca de 200 instituições concentram aproximadamente 60% das matrículas. Segundo ele, esse subconjunto possui atributos que não se estendem ao sistema como um todo — autonomia institucional, capacidade estruturada de pesquisa e atuação integrada em ensino, pesquisa e extensão. Para Curi, esse diferencial posiciona as universidades como espaços estratégicos para responder às demandas socioeducativas e liderar a expansão do ensino superior em direção ao desenvolvimento socioeconômico do país.

Apesar desse potencial, Curi apontou que a expansão observada nas últimas décadas não se traduziu plenamente em avanços proporcionais para o futuro do país. Ele ressaltou lacunas no processo avaliativo e regulatório, que ainda não capturam adequadamente a diversidade do cenário nacional, além de um déficit no papel inovador das universidades, que muitas vezes não entregam à sociedade o impacto esperado — especialmente no que diz respeito à empregabilidade e à articulação com ambientes profissionais. Para ele, as universidades deveriam ampliar sua capacidade de gerar conhecimento aplicado e fortalecer sua presença como vanguarda social, com formações que efetivamente determinem e ampliem impactos positivos para a sociedade em geral.

Encerrando a sessão, Vidal Martins, vice-reitor da PUC Paraná, reforçou a importância de incentivar políticas públicas que aproximem de forma efetiva as instituições de ensino superior do mercado de trabalho. Para ele, esse processo começa pela definição precisa dos problemas a enfrentar — considerando particularidades regionais, vocações locais e tendências emergentes — para então construir um futuro desejado com base em oportunidades reais e no reconhecimento das forças e fragilidades do sistema. Martins destacou que esse avanço depende de objetivos claros e mensuráveis, capazes de orientar ações conjuntas e gerar profissionais mais alinhados às necessidades dos países da região.