O Semesp, o Consórcio STHEM Brasil e a Universidade Coimbra realizaram nesta quinta (27) mais uma edição de “O Admirável Futuro da Educação Superior”, que teve como tema o “O fim das universidades como conhecemos hoje”. Ao longo de todo o dia, gestores e especialistas em educação superior participaram de discussões e painéis para refutar a ideia de que as instituições de ensino superior estão com os dias contados, mas concordando de que elas precisam passar por mudanças para terem novas possibilidades de futuro.

Hugo Pardo Kuklinski fala sobre 12 forças tecnológicas inevitáveis que as IES precisam ter em mente

Futuro inevitáveis

O primeiro painel do evento, “O futuro inevitável das instituições de ensino superior”, contou com fala de Hugo Pardo Kuklinski, diretor da Outliers School, que começou contextualizando a evolução da tecnologia e alertando que as instituições de ensino precisam ter em mente que os ciclos de inovação são contínuo.

“Agora estamos debatendo a inteligência artificial, mas essa evolução é contínua. Acredito que logo estaremos discutindo computação quântica”. adiantou. “A cada novo ciclo, as IES ficam surpresas e agem como se tivessem que começar tudo de novo”, lamentou. “Precisamos desenvolver uma solução para essa inovação permanente, uma cultura start-up que perceba essas mudanças como naturais”, alertou.

Em seguida, Hugo Pardo Kuklinski listou 12 forças tecnológicas inevitáveis que afetam as interações humanas com o mundo institucional, entre elas uma mudança da cultura acadêmica textual para uma cultura transmídia, uma mudança na perspectiva de propriedade dos conteúdos para o acesso e uma mudança para uma cultura de remixagem, em que nada é puramente novo e tudo se transforma, etc.

“Sempre estamos voltando para o começo e precisamos estar preparados permanentemente para criar novos universos educacionais”, destacou Hugo Pardo, que elencou alguns pontos que as IES precisam rever: governança e gestão; a separação entre campus físico e digital para a criação de uma universidade híbrida expandida; os papéis dos professores, que devem criar uma experiência de aprendizagem emocionante que transcende aspectos temáticos; e como promover uma maior interação entre estudantes e mercado de trabalho, com as IES incentivando que os alunos criem um portfólio profissional digital, por exemplo.

Mais uma vez, Hugo Pardo sugeriu que as instituições de ensino superior precisam adicionar a cultura start-up aos seus modelos de gestão, criando, por exemplo, laboratórios de ideação agéis para acelerar mudanças estratégicas.  “É preciso também que as IES impulsionem a inovação contínua, mas esta precisa ser focada na melhoria das experiências dos estudantes”, defendeu.

Para saber mais sobre as questões apontadas por Hugo Pardo Kuklinski, autor do livro “Os futuros inevitáveis das universidades: Ideias para gestores realizarem a consolidação híbrida”, que serviu de base para o tema do evento “O Fim das Universidades Tradicionais”, acesse aqui.

Especialistas discutem se realmente é o fim das IES como conhecemos atualmente

Fim das IES?

No segundo painel da manhã, “O fim das IES como conhecemos hoje”, Marina Feferbaum, coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV, alertou sobre estudos que apontam “um momento crucial na educação e a dificuldade dos alunos com o uso, possibilidades, dilemas e práticas institucionais da Inteligência Artificial”.

Segundo ela, cerca de 300 milhões de empregos serão afetados pela última onda da IA, com 44% das funções sendo automatizadas até 2050.”Nas empresas também, há uma guerra pelo uso ético e correto das IAs generativas. E há os que pensam em parar com tudo”, pontuou ela, que apresentou uma pesquisa que aponta que existem uma série de aflições sobre o futuro do uso das IAs generativas: precisão e desinformação, ceticismo com resultados, usos fraudulentos e ilegais, plágio, perda de emprego ou, por outro lado, confiança excessiva.

Marina Feferbaum falou ainda dos desafios éticos e jurídicos das IES sobre integridade acadêmica, plágio e falta de precisão de dados e fontes, com vieses de discriminação; privacidade e segurança de dados, transparência e desigualdade de uso e acesso. “O novo papel do uso da tecnologia é usar tanto como ferramenta quanto como objetivo do conhecimento para construção de relacionamentos confiáveis, otimizando funções e aprendendo sobre ciência de dados”.

Dale P. Johnson, diretor de Inovação Digital do University Design Institute da Universidade Estadual do Arizona, iniciou sua apresentação afirmando que “nós não vamos reconhecer as novas IES em 10, 20 anos porque elas vão mudar totalmente. Eu uso a Inteligência Artificial para fazer as minhas aulas. Nossos alunos, metade deles, estão on-line”.

“Temos 112 IES em 24 países, e em todas as partes do mundo temos os mesmos desafios”, continuou ele. “Precisamos reimaginar a educação. Temos de ajudar e dar suporte aos nossos estudantes, construindo pontes educacionais que geram valor e compromisso social”.Para o educador, existe uma necessidade de integração dos setores das instituições e que os estudantes aprendam durante toda a vida.

“A demanda hoje de nossos alunos é que haja um novo design operacional e o aprendizado de novas habilidades. Temos de construir uma abordagem holística para a transformação universitária, e o apoio das lideranças é fundamental”, defendeu. “É preciso que as IES foquem no desenvolvimento do corpo docente, a partir de três tipos de treinamento: o pedagógico (que enfatize o aprendizado interativo); o tecnológico (que crie experiência em sistema on-line) e a facilitação de grupos (que desenvolva habilidades instrucionais)”, finalizou afirmando ainda que as instituições precisam investir em infraestrutura institucional, em sistemas de análises de dados, ambiental digital de aprendizagem e armazenamento e veiculações de vídeos.

Falas de abertura

O evento contou com o apoio das IES Arizona State University e Tecnológico de Monterrey e falas de abertura da presidente do Semesp, Lúcia Teixeira; do diretor de Inovação e Redes do Semesp e presidente do STHEM, Fábio Reis; do diretor de Inovação Digital – University Design Institute | Universidade Estadual do Arizona, Dale P. Johnson; e da Diretora de Operação Internacional na Vice-Reitoria de Educação Continuada da Tecnológico de Monterrey, Carla Diez de Marina.

Lúcia Teixeira disse que o evento a cada ano aborda a linguagem da ciência, da universidade e da inovação. “Temos de manter a relevância da educação superior em um mundo em que as IES precisam se reinventar para colaborar com a sociedade e comunicar seu papel social para o mundo. Em uma nova era, em que vivemos da inovação tecnológica, há necessidade das IES redefinirem seus papéis. São muitos os desafios da nossa sociedade e precisamos manter a nossa relevância”, defendeu.

Fábio Reis destacou as principais discussões ao longo do dia e os palestrantes: “Nós temos uma coletânea de artigos da coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV, Marina Feferbaum, que nos questiona sobre a nossa resistência à mudança. Segundo ela, essa falta de ação pode nos levar ao fim. E o diretor da Outliers School, Hugo Pardo Kuklinski, nos instiga em sua palestra de abertura a pensar fora da caixa”, contou.

O diretor de Inovação Digital do Instituto de Design da Universidade Estadual do Arizona (ASU), Dale Johnson, acrescentou: “A ASU é uma grande universidade pública dos EUA, e nós trabalhamos unidos com o STHEM, o Semesp e a Universidade de Coimbra, para incluir mais estudantes em nossas instituições, dar mais acesso e segurar que tenham mais sucesso em suas vidas. Isso só é possível por causa dos valores compartilhados, é um trabalho para assegurar que os professores brasileiros estejam preparados para o futuro”.

Carla Diez de Marina finalizou dando cinco caminhos para o futuro das universidades: “Temos que assumir a responsabilidade social e criar ética necessária para o uso das tecnologias que estão emergindo; precisamos focar esforços e incluir mais pessoas no grande privilégio de serem educados e usar os talentos em benefício da sociedade; pesquisar e educar nossos alunos quanto à responsabilidade ambiental e a sustentabilidade para que o mundo seja mais próspero e os recursos não se acabem; temos de começar a participar da formação de uma nova rede social a partir das tecnologias que existem hoj e influenciar na política normativa para formar e criar um mundo melhor; por último as universidades precisam trabalhar no formato de colaboração interdisciplinar, dentro da própria universidade, para provocar aprendizagem ao longo da vida”.