Assessoria
Educacional
PROPOSTAS CURRICULARES
Nas
escolas elaboramos a grade
do professor, a grade
horária dos alunos e a grade
curricular do curso. Com o abandono das velhas Resoluções
determinadoras das estruturas curriculares - mínimo e pleno -
e a chegada das novas diretrizes curriculares, tudo
mudou. Acabou o engessamento de disciplinas num
conjunto pré-normatizado, sem qualquer liberdade de oferta.
Na
instituição de ensino superior cada curso é um disco,
trazendo um conjunto de canções. Numa analogia simples, um
disco é o currículo de um curso. A preferência e seleção
do maestro arranjador
tem condição determinante na escolha do repertório das músicas
que integram o disco, vale dizer, da sua aceitação ou não
no mercado fonográfico.
É
o arranjador quem trabalha com a melodia original, com noção de
conjunto que “vê” o todo da orquestra. Compasso a
compasso ele escreve a partitura e o que cada instrumento
executará, em qual momento, com qual duração e intensidade.
Em estúdio, no momento da gravação da música, é o maestro
condutor quem terá à sua frente a grade
musical dispondo o que cada instrumento tocará.
Até
a chegada da nova LDB e antes das novas diretrizes
curriculares, substanciadas em habilidades e competências, as
escolas montavam os currículos de seus cursos orientadas
pelas velhas Resoluções que ditavam a carga horária e o
elenco de disciplinas. O Parecer 146 do CNE/CES de 03/04/2002
é rico nessas explicações históricas.
Numa
como em outra, a grade
musical como a grade
curricular, o visado é a estruturação de elementos que
aglutinados com ciência e técnica resultem num conjunto
harmonioso. Uma arquitetura sistematizada que guarde relações,
interdisciplinaridade, método, coerência, afinidades e
complementaridades.
Eis a questão, para não dizer o
problema.
As
velhas Resoluções propunham um rol de disciplinas que
deveriam ser contempladas no currículo do curso, inclusive
sugerindo ementas programáticas. Havia uma relativa segurança,
em termos nacionais, de que os cursos tinham ou deveriam ter
identidade curricular em todo o território.
Agora, não mais.
Hoje,
cada escola/curso entenderá formular o seu currículo ao
gosto e sabor das habilidades e competências profissionais
locais, conforme a Coordenação, que em última análise deve
elaborar o seu Projeto Pedagógico, respeitado também o seu
PDI - Plano de Desenvolvimento Institucional. Em razão do
centralismo normativo do MEC, e demais órgãos da educação
em nível superior, acontecerá uma “edudiversidade”
preocupante.
É
trabalho hercúleo mas não impossível. Para uma boa gama de
cursos superiores os neo-currículos se apresentarão como
grandes dificultadores pois as interpretações daquelas
habilidades e competências, eixos das novas diretrizes, que
deverão focar o aspecto profissional na preparação dos
jovens ao mercado de trabalho, poderão ficar de pé quebrado.
Com
grande esforço intelectual, autoridades da educação
cenarizaram para as áreas do conhecimento/cursos “uma
partitura arranjada”
com esmero clássico.
Resta
saber se as Coordenações de cursos terão a mesma capacidade
buscando eficácia e eficiência nos currículos que ora, com
total liberdade, estarão propondo à juventude com condições
e oportunidades para acesso ao trabalho. O que, em última
instância, é o único desejo e interesse do universitário.
Como conciliar possibilidades institucionais internas, nível
educacional dos ingressantes, demandas e graus de tecnologias
locais/regionais de trabalho, corpo docente à altura dessas
exigências, acervos bibliográficos e laboratórios de ponta?
Será
preciso, minimamente, uma boa dose de paciência - ao menos
quatro anos para saber
do acerto da proposta - evitando o malefício do “turn
over” de Coordenações, porque o Projeto, antes de ser da
instituição/faculdade é do Coordenador em conjunto aos seus
pares, conforme o Art. 13 da LDB. É na base do ensaio-erro.
Adotar o neo-currículo de outra escola, justapondo-o por cópia
em outra faculdade, mais do que um crime é uma insanidade.
Toda escola deverá ter “a sua cara, a sua identidade” com
personalidade curricular própria. E mais, de quem será a
grife aposta no currículo? Da academia ou dos técnicos/profissionais?
Pelo
Art. 13 da LDB toda a comunidade está convocada a interagir
na elaboração do currículo. Não é tarefa para quem
“toca de ouvido” qualquer instrumento, da gaita de boca ao
fagote, do oboé à flauta doce.
Surrealismo à parte, poderemos passar a ouvir a Ária
na 4a. Corda, de Bach, em ritmo de samba com cuíca e
pandorins.
A
grade musical com
partitura bem arranjada, sobretudo bem conduzida pelo maestro,
quase nunca encalha nas prateleiras. Na ponta final da venda o
CD custa perto de trinta reais. Não gostou, descarta. Uma grade
curricular de curso, desafinada, quase sempre dá um disco de
latão enferrujado. E custa em média seis mil reais/ano. E
leva quatro anos para escutar todas as faixas.
Será
que ainda vamos ouvir perguntas como “o que tem a ver essa
disciplina com o meu curso”? Ou, “já trabalho na área e
estou aqui só por causa do diploma”! Conflitos de formação
à parte, tudo indica que os tempos mudaram mesmo.
Definitivamente, acabou a era dos valores agregados,
propiciados na formação universitária pelos conhecimentos
humanistas, ora deletados dos currículos. Profissionalização
não é mais antropo-filo-sociológica.
Sem
dúvida, o currículo, como alma do Projeto Pedagógico,
fundamentado nas novas diretrizes curriculares, passa a ser
hoje a bandeira de um bom curso, uma boa escola, cuja preocupação
central, cuja inteireza dos fatos sociais, permeando as
profissões e por conseguinte o mercado de trabalho, dão o
tom da afinação.
As
Coordenações de cursos nunca tiveram importância tão
destacada, ímpar, no conjunto docente das instituições. Se
bons professores não é tão fácil encontrar, o que dizer de
bons Coordenadores, isentos e não contaminados pelo “espírito
de porco” reinante no cartório das salas dos professores.
Se antes já era difícil fazer o docente aceitar o plano de
ensino da instituição -- porque quase sempre ela carrega o vício
do seu insubstituível conteúdo programático -- hoje,
perpetrar-lhe as idéias e conceitos das habilidades e competências
exige esforço enorme com enfrentamento de inúmeras resistências
pessoais e profissionais.
Aí
estão, também, não sem razão, as exigidas dedicações
parcial e integral do docente, sem o que ele não tem condições
de mergulhar diuturnamente, aferindo e conferindo para onde vão
os mercados. O jornalista e professor Wagner Horta, com muito
acerto e propriedade, adotou a expressão “Não estude em
escola ruim. A vítima vai ser você”.
Com certeza, encabeçando a lista das mazelas está a
questão da grade curricular do curso.
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